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19 mar 2019

Black Mirror e o episódio de Nosedive sob o olhar da Psicanálise e da Terapia Cognitiva Comportamental

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Nosedive  é o primeiro episódio da terceira temporada de Black Mirror, série criada por Charlie Brooker,  que é composta por histórias independentes, com diferentes personagens e atores, mas todas convergindo para uma narrativa a respeito do uso abusivo de diferentes tecnologias, bem como sobre suas conseqüências sociais e pessoais.

A história de Nosedive se passa em um tempo futuro, onde pessoas são obstinadas por publicar imagens de si mesmas, de coisas ou situações artificiais e sem sentido, em uma plataforma de rede social. Até aí, nenhuma novidade diante do que já podemos observar nos dias atuais.  Entretanto, no desenrolar da trama, vamos nos dando conta da dimensão desse conflito.  Em Nosedive, a obsessão instalada  não se limita às postagens: esforços desmedidos em  mostrar uma farsa perfeita buscam o reconhecimento do outro, em um jogo de números, onde o ato de  avaliar e de ser avaliado diz respeito à questões como: reputação, popularidade, influência, resultando em  uma classificação que pode abrir ou fechar portas no mundo real.

Cria-se uma cultura da perfeição que transita entre o universo virtual e a realidade.

O personagem central da história é Lacie Pound, uma mulher desesperada para ser notada e ter sucesso nas pontuações  que recebe em uma espécie de mídia social.

Quase todos os personagens são dotados de lentes de contato que mostram a pontuação  das pessoas visualizadas. Os cenários são ensolarados e a grande maioria dos personagens tem aparência impecável e figurinos em tons pastéis.  Subterfúgio? Talvez, mas insuficiente para tamponar um sentimento de  angústia que permeia e domina a narrativa. Como observa Susan – uma das poucas personagens que está à margem dessa rede – nesse mundo não é possível falar o que se quer, nem quando se quer, pois as pessoas não gostam disso.  Ela completa: “como é incrível como tudo vai por água abaixo quando se age assim”.

Na trama, Susan, que já fora como Lacie, preferiu declinar em favor de sua liberdade, após ver a vida de seu marido ser tragicamente impactada por causa da pontuação. O marido, com uma doença grave, não pode ser submetido a um tratamento especial por causa da pontuação ser inferior a de outro paciente. Depois desse fato,  ela escolhe seguir às avessas e afirma que  “foi como tirar sapatos apertados”.

Ao longo do episódio, Lacie se submete a sucessivos tropeços. Por vezes é alertada por seu irmão – Ryan (outro personagem com pé na realidade) – mas o ignora com despreso,  despejando sobre ele seu repúdio por pessoas fracassadas e de baixa pontuação.

Numa perspectiva de abordagem psicanalítica, a instabilidade da auto-estima diante de experiências de frustração ou de reconhecimento, de desejo ou rejeição em relação ao outro, traz para reflexão o conceito freudiano de ideal de ego.  Freud observa que o ideal de ego aparece como uma subestrutura do superego, com  componentes e funções relacionados à consciência moral e à auto-observação. Se coloca como herdeiro do narcisismo original, trazendo  identificações com os pais idealizados da infância.

Segundo Freud,  o narcisismo sofrerá mudanças após a formação do ideal de ego, pois o ego buscará, com seus atos, assemelhar-se  ao ideal. Assim, haverá sentimento de estima ou culpa, dependendo  da capacidade de gratificá-lo ou não.

A vida em Nosedive parece oferecer todos os entornos para dar vazão a um tipo de comportamento de exigências severas – tanto do ponto de vista dos ideais, como das repressões sociais, onde, para se amar, o indivíduo precisa atender as  exigências da realidade externa.

É interessante observar a ambigüidade entre os interesses individuais e os coletivos, entre estar conectado e ao mesmo tempo solitário, onde a preocupação com a forma perfeita diz respeito a um padrão ideal estabelecido pela  mídia. A busca desenfreada por esse padrão, por fazer parte do seleto grupo de pessoas bem relacionadas, com pontuações acima da média, renuncia o contato com a própria subjetividade. A imagem que se busca na tela não diz respeito aos contornos reais, mas à imagem que se deseja ter de si mesmo.

Do ponto de vista da aborgagem cognitiva comportamental, a leitura a ser feita especialmente sobre a personagem protagonista – Lacie –  recai sobre as crenças básicas de Desamor (Indigno), Desamparo (Frágil) e Desvalor (Incapaz) de Aaron Beck. Geralmente, tais crenças aparecem de maneira bastante rígida, muitas vezes de modo inconsciente e generalizado. Elas surgem ao longo da vida quando o indivíduo sente que não teve suas necessidades atendidas.

De modo fictício, o episódio aponta para aspectos importantes, como o  “relatório de reputação” e a análise de “esfera de Influência”, usada para a locação de um imóvel. É visto que Lacie demonstra uma necessidade bastante acentuada de atingir a máxima performance para ser reconhecida nesse ranque de pontuação e, inconscientemente, de lidar com as crenças básicas que ativam sentimentos e emoções de impacto negativo. Haja vista a necessidade de ser amável o tempo todo para poder ser reconhecida (aumento da pontuação) e compensar as crenças de desamor ou desvalor, bem como aceitar as exigências de uma amiga de infância – Naomi –  que está no auge da pontuação e que lhe faz pedidos sem qualquer limite, acreditando que desse modo será amada e valorizada. Como diz Ryan: “uma coisa é ser doce, outra coisa é morrer de diabetes.

É interessante observar que Lacie entra em um funcionamento mental bastante desafiante, pois precisa impulsionar a sua reputação e, para isso, ela se distancia de valores importantes, como o vínculo familiar. O seu irmão procura alertá-la da importância de se relacionar para além de números e que morar especialmente no luxuoso condomínio Pelican Cove, sem ter condição financeira, pode não ser bom como ela idealiza. Há a recusa de todas as recomendações, pois as crenças de Lacie estão consolidadas como verdades rígidas, impedido que a mesma obtenha uma compreensão menos distorcida da realidade. Tudo isso provoca revolta em Ryan, que se despede da irmã dizendo: “vai morar na ala de prisão para gente falsa.”

Diante das discussões com o irmão, da dificuldade de se relacionar socialmente de modo espontâneo e da rejeição da amiga Naomi, Lacie demonstra ter pouco repertório para administrar situação-problema e, por manter relações baseadas em números, não possui vínculos sólidos, tampouco uma rede para lhe amparar. A crença de desamparo de Lacie se potencializa pelas inúmeras ações invalidadas,  acarretando em comportamentos de prejuízo pessoal e social, terminando por ser detida em uma prisão, onde ela finalmente compreende a importância de ser quem  é,  independente de qualquer performance.

Desse modo, como acontece também nos demais episódios de Black Mirror, Nosedive nos faz pensar que, engana-se quem imagina que a tecnologia é o ponto central da trama.

 

AUTORAS

DENISE FUKUYAMA SANCHES

Psicóloga e Analista de TI

email: fukuyamadenise@gmail.com

 

ELOIZA RODRIGUES

Psicóloga Clínica Pós Graduada em Psicologia Jurídica

www.eloizarodrigues.com.br

email: contato@eloizarodrigues.com.br

 

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